segunda-feira, 15 de outubro de 2018

ARTIGO: UMA CARREIRA PARA POUCOS


Já não há tantas homenagens às professoras e professores no dia 15 de outubro. Na verdade, penso que talvez seja melhor assim. Ocorre que homenagens, quando expressas com profunda sinceridade, são sempre bem-vindas. Entretanto, as incoerências de muitas bajulações vazias ficam evidentes quando voltamos ao trabalho no dia seguinte. A nós importa sermos lembrados pelo nosso relevantíssimo papel social, também, para além dessa data magna. Repudiamos ser tratados de forma desrespeitosa quando, esgotadas as opções de diálogo, fazemos as greves em busca de melhorias salarias e de condições dignas de trabalho – gostaríamos, sinceramente, que não fosse necessário tomar medidas tão desgastantes para nós e para a sociedade. Discutir a legitimidade de piso salarial para os professores, por exemplo, parece-me pauta vencida, para não dizer desarrazoada, imoral e vergonhosa.

Façam-nos a gentileza de não nos chamar de heróis, pois dispensamos essa alcunha honorífica. Basta-nos sermos tratados com o digno, significativo, respeitoso e singelo título de professora ou professor. Agradeceríamos, também, se parassem de dizer que nós, docentes, temos que trabalhar por amor. Pedreiros, policiais, médicos, cozinheiros e tantos outros profissionais não trabalham por amor, por que conosco deveria ser diferente? É verdade que fazemos muito com pouco e, às vezes, com quase nada. Criamos estratégias para transformar escolas depredadas em ambientes acolhedores, porque sabemos que não se aprende bem num ambiente de desordem. Levamos calor humano onde esse já não existe ou, simplesmente, está escasso. Se muitas vezes nos transmutamos em pais, irmãos mais velhos, psicólogos, médicos, assistentes sociais e tantos outros papéis, o fazemos não por heroísmo, mas por ausência da família, omissão do poder público e uma apatia social generalizada. Nosso papel e principal compromisso é com a formação humana emancipadora dos nossos alunos e é desgastante termos que nos ocupar de tarefas outras, alheias à nossa precípua missão.


Adam dizendo, ultimamente, que o Google é o melhor professor que existe. “Hoje em dia a gente acha videoaulas sobre tudo na internet, quem precisa de professor?”, argumentam as línguas estultas – para não usar um outro adjetivo mais contundente. Dizem até que a solução para uma educação verdadeiramente emancipatória é equipar todas as escolas com tecnologia de ponta e acesso à internet ilimitado para todos os discentes. A verdade é que esses argumentos são tão rasos e medíocres que nem carecem de combate. Ainda assim, devo dizer que, em que pese o valor da tecnologia, sinto muito informar que a educação de qualidade não é comida delivery e nós professores não somos entregadores de pacotes de informação para mentes vazias – nós humanizamos pessoas numa relação dialógica face-a-face real, estabelecida no espaço pedagógico compartilhado por pessoas reais, muito embora esse tipo de relação esteja cada vez mais escasso na sociedade ensimesmada e adepta do pragmatismo.

Caríssimos professores e professoras, recebam, se digno for, os sinceros parabéns de um colega vosso! Sem romantismo barato, gostaria apenas de lembrar-vos que o nosso trabalho é uma carreira para poucos. Para poucos que têm competência para tornar as tardes e manhãs de crianças tão pequenas, em momentos produtivos e ricos de aprendizado, enquanto seus pais trabalham para produzir a riqueza do nosso país. Para poucos que, com sabedoria, lidam com adolescentes e jovens cada vez mais conectados às redes, puxando-os, através do diálogo e por alguns minutos preciosos de aula, para o mundo real do qual eles estão cada vez mais desconectados. Para poucos que têm a coragem de enfrentar a vida cheia de contradições, as chagas resultantes da desigualdade social, a latência do preconceito e da intolerância à diferença e a violência física, verbal e psicológica que, infelizmente, invadem com cada vez mais força nossas escolas e universidades. Parabéns, porque, embora sejamos poucos, fazemos muito e tanto mais o faremos!

Isaac Figueredo de Freitas
Prof. de Libras e Estágio I
Univasf campus de Sr. do Bonfim

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