quinta-feira, 29 de novembro de 2018

SOBRE O ESPETÁCULO: CONSTELAÇÃO BONFINENSE POR ELI DE CASTRO!


Eli de Castro – Graduado em Artes Plásticas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA; Licenciado em Artes pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Candeias - FAC e Pós Graduado em ensino de Artes pela Universidade Candido Mendes do Rio de Janeiro; Artista plástico, poeta, cordelista, ilustrador, professor da rede municipal e membro da Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim - ACLASB

Dia onze de Novembro, às 19:00 horas tive o privilégio de participar de um evento no Centro Cultural Ceciliano de Carvalho na cidade de Senhor do Bonfim promovido pela Escola Casinha Feliz, em parceria com o Ballet Casinha Feliz. O presente espetáculo nasce da ideia de homenagear a ACLASB – Academia de Letras e Artes de Senhor do Bonfim. Para isso, foram selecionados dez imortais. Essa seleção baseou-se na diversidade, com poetas homens e mulheres, na temporalidade, com poetas do passado e contemporâneos e, por fim, na singularidade de suas biografias. As poesias selecionadas correlacionam-se, na medida do possível, com os dados biográficos dos autores. Transpassa essa escolha, ainda, as poucas obras disponíveis em acervo, limitando o horizonte de opções. Com isso, esclarece-se que a escolha dos poetas não se deu por uma hierarquização qualitativa das obras de nossos mais diversos e distintos imortais. A ACLASB possui vinte e seis anos e reafirma o compromisso com as Literaturas, as Artes e a Cultura bonfinense.  (Texto: Edvan Cajuhy & Michel Guimarães).
Este encontro especial teve como diretores de coreografia Graicy Reis e Larissa Ridrigues, direção de atores por Fabiano Russo e dramaturgia por Edvan Cajuhy e Michel Guimarães.

Dentre os poetas homenageados, de igual modo, tive a honra e a responsabilidade ter sido escolhido para representar a academia com um de meus humildes poemas, lindamente apresentado, encenado e coreografado.

Antes, já havia sido agraciado por ser filho de Quixabeira e ter o reconhecimento deste povo para representar a cultura bonfinense, que sempre me encantou. E como disse anteriormente, uma honra e uma grande responsabilidade, pois, como outros vários artistas, minha história, meu estilo de vida e meus pensamentos e reflexões podem contribuir para nortear outros futuros pensadores entre os cidadãos locais no caminho do bem e da igualdade, numa época onde a arte e a docência estão ameaçadas, onde a cultura do ódio, do preconceito e da negação procura ofuscar a justiça.

Poesia, música, dança, performances e teatro embalaram a noite enaltecendo a beleza. Nunca tinha participado de um evento cultural que valorizasse a poesia tão perfeitamente e dignamente como neste. Além da poesia costumar ser esquecida. Ela é uma das formas de expressão mais solitárias, pois no passar das páginas não significam nada além de um amontoado de letras para quem simplesmente folheia, e, mesmo para os que leem, ela nem sempre se revela, pois é tímida, silente. Para que ela se comunique, converse com alguém, requer intimidade, sensibilidade. E leva tempo a conquista, por isso muitas das vezes ela vai dizer não.

No evento, uma linda abertura, em seguida um músico narrador quase que recitava a biografia do artista homenageado e de sua obra, na sequência atores encenavam recitando seu poema e por fim, bailarinos coreografavam a vida do artista e de seu poema ao som de uma canção. Emocionante. Nunca tinha visto a magnitude da beleza poética neste nível, porque ela costuma ser silente. Chorei, me encantei e recordei o dia em que a escrevi. Eu ainda morava em Salvador e voltava de um encontro muito especial com uma pessoa querida que não está mais comigo. Era fim de tarde e eu estava olhando pela janela do ônibus vendo tudo passar, mas prestando atenção aqui e ali e refletindo a respeito de muitas coisas da vida, então os versos começaram a surgir. Eu peguei um pedaço de papel e comecei a escrever no balanço do ônibus, na gravidade das curvas. Já me aproximava de casa, mas não queria descer enquanto não esgotassem meus pensamentos e verso por verso chegava a mim. Então houve um engarrafamento e pude me tranquilizar escrevendo até o final. Depois fui para casa a pé tropeçando e andando devagar enquanto o relia e estava tudo lá. Cada verso, sem alterações, estavam ali como se alguém tivesse me ditado. Como eu sabia que havia terminado? Porque me emocionei. Talvez você não compreenda o que isso signifique, não por ignorância ou desconhecimento, mas porque não nos incentivam a sentir, mas apenas desenvolvermos um suposto pensar.

Eu não sou especial, apesar deste ofício tentar me apresentar assim, só me especializei em traduzir o que eu vejo, o que eu penso e o que eu sinto através da arte. Como o pedreiro que se dedica a construir e o faz com primor, um bom motorista que se habilita ao volante, um talentoso mecânico capaz de desmontar um motor inteiro e o montar novamente, um simples artesão capaz de construir uma gaiola, um atleta que se sacrifica para alcançar o pódio, um médico capaz de realizar uma cirurgia. É que a arte conduz o artista para a visibilidade e a arte não existe se estiver apenas no pensamento, mas quando canalizada, transformada, materializada de alguma forma e vista, nem sempre apreciada, mas apenas vista. Esse é o seu produto final, a visibilidade.

O engraçado é que estando lá eu também me lembrei de que por conta da poesia e do desconhecimento, da incompreensão, racionalidade e pouca ou nenhuma sensibilidade artística eu já fui conhecido como depressivo, meloso, bobo, preguiçoso, exagerado, apaixonado, doido, viado e até suicida, apesar de saber que quem tem em mãos essa arma pode atirar contra o próprio peito. Só porque eu sempre vi as coisas de um jeito diferente. Por isso, hoje em dia, tem sido melhor a companhia de artistas. Dos estranhos, dos desajustados, dos feios, dos “viados”, dos vagabundos, dos preguiçosos, dos que não tem nada pra fazer, dos gentios, dos ébrios, dos maconheiros, dos estranhos, dos "mamadores da Rouanet", porque dentre todos que conheci, numa escala de maldade, de falsidade e preconceito o índice foi quase zero. Encontrei pessoas simples que ajudam umas as outras apesar de terem tudo para competirem, que tem tudo para serem vaidosos por erem extremamente telentosos, mas que ainda estão dispostos a aprender, que estão abertos a críticas, que dedicam seu tempo e esforço para ajudar seu colega de profissão porque ele sabe que suas lutas são as dele também, porque ele se vê no outro e, muitas vezes, o faz até para desconhecidos, pessoas que ainda resistem e tem empatia, mesmo tendo suas lutas, que você normal, pessoa de bem, religioso respeitável nunca vai conseguir sequer imaginar, porque mesmo se você tivesse a capacidade de Jesus de sondar os corações você ainda escolheria usar o que as pessoas sentem contra elas para benefício próprio.

Na verdade, Eu só sinto o que todos sentem, amor, paixão, raiva, ódio, dor, alegria, tristeza, saudade, etc, etc. A grande diferença é que as sensações e os sentimentos que te embalam sem sua compreensão ou tradução, eu percebo, eu vejo, por isso me distraio e compreendo tudo de um modo muito particular, por isso eles não me deixam em paz, sendo este ofício muito parecido com o do médium, quando afirma que não escolheu ser assim, mas que aceitou sua missão. Você já sentiu algum encantamento? Emoções passaram pelo seu corpo te enchendo de uma beleza ou de uma tristeza que você não conseguiu traduzir? Um perfume ou algum cheiro já te fez viajar no tempo? Qual a sensação disso? Uma música te tocou? Já imaginou enxergar a vida como se assistisse ao clip de sua música preferida? Já ousou tocar numa ferida que você tenta esconder até de si mesmo para dela extrair beleza e contentamento? Já experimentou sentir algo que te afeta, um gigantesco segredo que é só seu e ocultá-lo sem jamais poder compartilhar sendo que ele te cutuca todo dia? Já experimentou amar em silêncio? Já sentiu a beleza de seus sentimentos sem poder externar porque as regras e convenções os deixariam feios? Porque as pessoas que você ama e a sociedade te veriam diferente? Porque as pessoas enxergam o mundo pela racionalidade, pelas regras e pela lógica, incapazes de compreender que as vezes só queremos se expressar sem esperar nada em troca, só queremos nos livrar de certas emoções para ter um pouco de paz, sem julgamentos errôneos e puramente racionais? Já tentou negar e esquecer sua essência e quem você é? Não são tarefas simples e é isso que eu sinto quase o tempo todo por quase tudo e qualquer coisa, porque quase tudo me alcança. E isso me faz bem ao mesmo tempo que me envenena porque eu não sei ser de outra forma, eu só vivo como você porque eu tenho outra necessidade humana: ser aceito.

Isso me conduz a lugares maravilhosos, eu viajo ao paraíso, mas infelizmente passo pelo inferno. Vivo o céu e o inferno quase todo dia. Quase tudo mexe comigo e me emociona ou me incomoda de uma forma que nem sempre eu consigo evitar. Quase todo dia tento driblar as vozes que me convidam para criar, para fazer alguma coisa porque também eu quero assistir, caminhar, conversar, falar bobagem, porque eu tenho que realizar tarefas comuns, coisas normais, porque tenho que viver. Quase o tempo todo e eu só tenho que encontrar uma maneira de canalizar, de me libertar de tudo com alguma coisa que eu saiba fazer. O problema é que a fonte nunca se esgota e que eu sinto tudo numa escala estranhamente maior.
Mesmo assim, eu só sinto o que todos sentem, não sou diferente de você, mas ao contrário da maioria que sente, eu compreendo, eu vejo e me expresso. Se você não pode dialogar com a síntese de um poeta, não o julgue ou o critique. Seu silêncio será melhor do que qualquer opinião irrefletida, boba ou cruel. Os meus pensamentos já não me deixam em paz, não torne tudo mais complicado. Só me permita ser estranho, porque algum dia, uma música, um desenho, uma pintura, uma poesia ou qualquer outra forma de expressão que eu canalizar ainda vai embalar os teus sentimentos, sensações, percepções, reflexões e lembranças, te fazendo pensar, reagir, te tornando melhor ou tornando o teu mundo um pouco mais suportável, porque a vida nunca é o que deveria ser. Não me venha com essa de que arte não serve pra nada porque eu sou a prova viva de que sem ela não se vive.

Logo a baixo a poesia escolhida pela ACLASB

Poeta? Não. Poente
Porque não sou imortal
Nem ao menos sou gente
Sou mais um anormal
Mascarado, doente
Um ninguém sendo o tal
Maquiado de normal
E mais outro indigente
Quero apenas compor
Decompor quem não sou
Flutuar, emergir
Vindo à luz da quimera
Assumir a virtude
Que latente amiúde
Só me diz: Tem-me mais
Pois não sou o bastante
No casulo ofegante
Que retém-me da paz
Quero a luz da manhã
Nessa noite infinita
Quero o verso completo
E a poesia assinada
O universo repleto
De luzir conhecido
Não um astro perdido
Como estrela isolada
Quero ter a emoção
De tecer a escrita
Sem que algum eremita
Me condene por tal
Quero o canto
O acalanto
Quero o pranto
O encanto
Quero tanto
Esse mal
Que não posso entender
Porque vivo assim
Pois sou um poema
Sou verso
Fonema
Sou rima sem fim.

                                       Senhor do Bonfim, 21 de novembro de 2018.

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