terça-feira, 11 de junho de 2019

ARTIGO: DIA 23 DE JUNHO – UMA DILATAÇÃO NO TEMPO


Humberto Santiago (Béu) , 11-06-2019

Ao primeiro canto do galo, abro os olhos e levanto da cama. É o Dia 23 de Junho, uma sexta-feira! A feira municipal do sábado foi antecipada para hoje, pois amanhã é o feriado de São João. Lá fora, ouço o passar de pessoas e animais que se dirigem à feira para comprar e vender produtos que fabricam, bichos que criam ou culturas que plantam.

As conversas parecem diligentes! Todos têm pressa de chegar e sair. A noite de São João é imperiosa e o assar da carne de bode, das batatas e do milho nas fogueiras faz parte da cultura da cidade.
O São João de Senhor do Bonfim é famoso em todo o Brasil, sendo, inclusive, mais de uma vez, reportagem ao vivo no Jornal Nacional da Rede Globo e de outros telejornais.

O catingueiro ou matuto sabe que haverá forró em toda parte, seja na cidade, no distrito ou em qualquer lugar que exista aglomeração de casas e de pessoas. A festa só acaba quando o dia amanhece, o sapato “fura” ou o cidadão fica embriagado. O vestido de chita e a camisa quadriculada, de fabricação caseira,  quem costurou foi a comadre que mora na vizinhança.

Ao levantar, vou logo tomar banho, no que me questiono: encarar o frio de 18° graus ou a água aquecida no fogão? A resposta está no tempo, muito escasso para cumprir com todas as obrigações de um dia longo e atribulado.

Banho tomado e “bucho” cheio de cuscuz com ovo, carne de sol e café com leite, é hora de sair e me encontrar com Jailton Santana, Chiquinho e Ricardo Miranda, os irmãos Netinho e Cirinho, Fenelon, Nego Amintas e mais alguns outros que irão buscar a árvore para a fogueira que será erguida na Praça Caixeiros Viajantes. Este ano promete! Se em anos anteriores o local ficou credenciado como o espaço de maior fogo de espadas, neste, a coisa ainda vai ser bem melhor!
Entre os tocadores de espada, corre a notícia de que Jambeirinho, filho de Aurino Jambeiro e irmão de Dadá e Sérgio, trará de Cruz das Almas espadas com proporções bem maiores do que as nossas, alcançando um facho de fogo que ultrapassa os três metros de cumprimento. São espadas poderosas pelo peso e velocidade.


Todos sobem na carroceria do caminhão do Sr. João Santana e partem para o mato. Jailton é o motorista e escolheu os lados da primeira-ponte para procurar a árvore nas terras do Velho Livino, pai de Miguel da Autopeças Teixeira. Árvore escolhida, facão e cordas às mãos, fizemos o corte do tronco e o colocamos na carroceria do caminhão. De volta à praça, Cirinho começa a cavar o buraco para enterrar a fogueira, nas proximidades da casa do Sr. João Avelino, que, tal como os demais moradores, iniciou a proteção das suas janelas com papelão. Todos querem participar da festa, inclusive D. Petu, que já fez o convite à sua filha e ao seu genro, Tenente Paulo e netas (Paudete, Perpétua e Carmém).

A árvore está no chão! As mulheres e crianças chegam, trazendo os presentes ou brindes que serão amarrados aos galhos. Antoninho Xavier chama a atenção de todos, dizendo que há um brinde de alto valor dentre aqueles que foram amarrados. De imediato, seus irmãos Renato e Raimundo confirmam a presença do “valioso” brinde e a árvore é erguida. Agora, é esperar a chegada da hora de colocar fogo e partir para a defesa contra aqueles que a querem “comer crua”. “Fogueira de João Santana não se come crua!”, grita Jailton, já em trajes de gala para a festa, ou seja, nu da cintura para cima.
Saindo da Caixeiros Viajantes, passo na Praça Nova, onde encontro Kelebreu, radiante, pois conseguiu compor o “Grupo Kelebreu e Seus 40 Ladrões”, que sairão montados em jegues no dia 24, sábado. Antonieta Bamberg, por sua vez, está preocupada com o desfile de carroças que organiza todos os anos. Tudo tem que estar perfeito, muito bem preparado, e os carroceiros não devem cansar seus animais.

Kelebreu questiona como está a programação da sexta-feira, se as fogueiras já foram colocadas nos devidos lugares? Respondo que a da Cotegipe já fora içada e que tenho conhecimento que está tudo certo com as da Costa Pinto, da Visconde do Rio Branco e da Prefeitura, erguida na Praça da Igreja, bem em frente à casa do Dr. Pedro Amorim, apesar da desaprovação de D. Analgesina.  Asseguro, também, que o pessoal do Grupo Caroá está sendo reunido às portas do Hotel Leste e que Fernando, Zecrinha, Deni, Marão, Salomão (Loló), Newton Menezes, Nel e Paulo Augusto confirmaram presença no bloco com seus instrumentos. Da mesma forma, que Telma Coelho colocou o traje de Rainha da Inglaterra, demonstrando a irreverência e bom-humor peculiares do grupo.

A saída do Caroá no dia 23 é motivo de júbilo para a população. O grupo é altamente festivo, canta e dança o tempo inteiro. Sai por volta das 13 horas do Hotel Leste, passando pela casa de Esterzinha Gonçalves, onde começa a agregar mais pessoas: Sérgio, Jaiminho e Márcia Reis.  Primos e convidados da família Gonçalves vão formando um bloco que irá crescendo, na razão em que percorre as ruas e visita casas. Não tem hora para acabar! O ponto final é sempre a casa de Hélio e Rose Palmeira (“ô dona da casa, por nossa senhora, dai-me o que beber, senão eu vou embora”). De casa em casa e de música em música, o grupo vai aumentando: Márcia Jacobina, Teobaldo Filho, Jeferson Muricy, Glorinha da Paz, Helena Fahel, as meninas Bartilotti Sena Gomes (Iolanda, Leonor, Sônia, Perpétua e Maria José), Carlinhos Coelho e tantos outros. O grupo vai desfilando pelas ruas, enquanto Mauro Coelho, com a sua inseparável máquina fotográfica, vai clicando a tudo e a todos. Nada passa indiferente aos olhos treinados e sensíveis que o tornaram um dos maiores e melhores documentaristas de Senhor do Bonfim, tendo fotografado grandes eventos e artistas que se apresentaram em nosso São João. Dentre estes,  Luiz Gonzaga, Dominguinhos, Osvaldinho, Flávio José etc., além de muitas autoridades e outros cantores, como o seu grande amigo “Eurípedes” Waldick Soriano.

Despeço-me de Kelebreu com o famoso “ à noite, a gente se vê!” e caminho pela cidade. Antes de sair, Kelebreu me lembra que, nesta noite, no palanque da Praça Nova, irão se apresentar Luiz Gonzaga e Dominguinhos, como forma de demonstrar que este será o São João das nossas vidas.
Passo no Abrigo, vizinho ao Cinema, e vejo Peta e Miltinho Sena Gomes, Nel ( irmão de Colorido), Jair e Jailson Santana (Didi), Rodriguinho, Caio Raimundo, Cezinha, Zé e Marcos Leite, Carlinhos Sena Gomes, os irmãos Angelim ( Issinho, Joares e Careca ). A Sorveteria-Bar está cheia e Almofadinha coordena os serviços com grande maestria. Até os Caios (pai e filho) estão ali para ajudar!

Na praça em frente ao Hotel São José, estão os filhos de Dr. Ananias, Paulo e Jorge Guerreiro, conversando com os irmãos Hermógenes e Zenon. Em outro banco, Omar Guimarães, Gil Caribé, Israel (Rael), filho de Adauto, os irmãos Francelino e Toinho Guimarães, Serginho Teixeira e seu irmão Celso, assim como o primo Celso Antônio, Luiz Paulo Muricy (Xirú), Euclides Xisto, Antônio Augusto, os irmãos Antônio e Paulo Fialho e outros, conversam despretensiosamente.

A Festa de São João, em Senhor do Bonfim, é lugar para encontros, reencontros e “desencontros”. Os Filhos da Terra que estão residindo fora retornam para os festejos juninos, quando acontece o esplendor da satisfação entre amigos de infância e antigos colegas de rua e de escola. Todos se conhecem e têm algo em comum!

Saio da pracinha e cumprimento Gilberto Cava-Chão e Antônio Kuhin. Passando pelo Bar do Teco, vejo um grupo de distintos senhores em boa prosa: Pedro Amaro, Aloísio Leal, Washington Lopes, Celso Teixeira, Carlos Sena Gomes ( meu padrinho), José Angelim, Flori, Roberto Papa, Sargento Lima, Dário Felix, João Paulo Guimarães, Manu Fonseca, Adauto, Paulo Silva, Petronílio, Jorge Silva, Javan Guimarães e muito mais gente.

No pequeno “reservado”, pode-se ver Aloísio Gonçalves, Antônio Carvalho, Joaquim Muricy, Cândido Félix, Cazuza Torres, Ananias Silva, Albérico Simões, Flávio Silva, Valter Almeida, Horácio Pinto, Temístocles, Miguel Abrahão Filho, Walfredo Gonçalves, Nélson Silva, Ozinho, Zezinho da Canoa e Ananias (ex-candidato a prefeito de Senhor do Bonfim). Sem dúvida, aquela era uma mesa política!

O bar está lotado e todos cumprem o “doloroso” dever de mastigar a deliciosa  “tripa frita” acompanhada por uma Brahma, casco preto e bem gelada, sucos e água de coco, servidos por Petrônio e Expedito Barreto ( Amarildo), irmão de Deni. Pedro Peixinho Pereira de Castro, o Teco, observa atentamente, soltando as suas costumeiras frases de efeito, o que provoca grandes e gostosas gargalhadas.

No caminho, em sentido Bazar, vejo Ciro, Berthier, Robério, Aristonzinho, Luiz Antônio, Luiz Alberto, Carlos Tadeu, Francisco, Deoclécio Sobral e Tico do Bracinho, que estão em sentido inverso, a caminho da Praça Nova, pois a sua decoração, a boa música e o Carro da Pitú chamam a atenção e a presença de todos, seja pela beleza plástica decorativa, seja pelas músicas juninas reproduzidas ou pela cachaça fartamente distribuída.

Na porta da Autopeças Teixeira, o pessoal da “velha guarda” continua as antigas conversas: Vivi, Raul, Nogueirinha, Senhorzinho, Pedro Nega, Calixto, Zuzu Lustosa, Rubens Batatinha, Regino Marceneiro e Dativo, que reforça os seus “causos”. Flavinho Barbosa espera a sua vez para contar os seus, bem-como as  viagens e estórias da Missão do Sahy, além da impagável imitação que faz de Adauto da Água Milagrosa. No interior da loja, Antoninho Teixeira conversa com Vavá Teixeira, Fernando e José Vicente, Paulo Martins e Pituta, que não pára de ler a A Tarde e o Jornal da Bahia. Naum, dono da bicicleta mais famosa e enfeitada de Senhor do Bonfim, os escuta ao longo do balcão!
Assis, com seu filho Cissinho, Tartaruga, Mestrinho, Luiz Moreira, Dr. Nequinho, Aragão e outros letristas e cantores da região deslocam-se à casa de Elisiário e do seu filho Zaca do Acordeon para os acordes finais. João Bagá, Renato e Pepeta Sena Gomes estão arrumando os apetrechos da festa, onde a queima da fogueira será feita ao som do violão e vozes dos convidados ( Glorinha, Renato, Washington, Sandra, Mauro Coelho ...).   

A cidade está cheia de gente, a maioria da Terrinha! Mas, há muitas pessoas de fora. Temo, inclusive, que possa prejudicar a nossa maneira própria de festejar o São João, ou seja, com as portas sempre abertas.

No Bar e Lanchonete Uirapuru, o balcão está lotado e Manoelito Bonfim está suando muito para atender a todos, ao tempo em que Edgar da Cocada tenta vender os seus bilhetes de loteria. Na porta do Sinuca, Paulo Henrique Muricy observa os jogadores e o palavreado do ambiente: o taco, o giz azul, o quadro e o giz branco! Pronto, está retratado o aspecto fiel da jogatina, só falta os adversários colocarem os valores apostados na caçapa para o início do jogo.

Do lado de fora, Carneirinho, com sua cadeira de engraxar sapatos, informa a Edezio Mota que vai “fechar” mais cedo. Pedro Bole-Barriga se exaspera, dizendo que Carneirinho já estava rico e que ele iria ficar engraxando enquanto pudesse. Pedro Cafuçu gira ente o Uirapuru e o Bar Hollywood, fomentando esperanças no seu Corinthians,  que perdera a última partida contra o Palmeiras. Jonas, do Hotel Central, avisa a todos no Uirapuru que o seu estabelecimento já vai servir o almoço, tão bem preparado por sua esposa e pela filha Eliza. 

Em frente ao Bar Hollywood e se deliciando com o acarajé de D. Celina, Velho Perigoso, Arnaldo Esteves, Bira, Paulo Braga e outros proprietários de terra identificam a mistificação do Dia de São José como responsável direto pela bela e farta safra de milho e feijão do São João. Naquele 19 de março, as chuvas caíram a gosto do produtor rural, anunciando um bom outono e o inverno que se avizinha. Perigoso anuncia que recolheu várias vestes de jovens da cidade (as minhas, inclusive!), quando tomavam banho nas suas aguadas. Arnaldo, por sua vez, salienta que o “Tanque do Governo”, próximo à Lagoa do Leite, é uma bela expressão do nosso lençol d´água.

A Rua Juviniano Duarte ou Beco do Bazar está em plena efervescência! Alípio Pantera (Pavão) desenvolve suas atividades policiais no cruzamento, facilitando a vida das pessoas que estão a atravessar as ruas, assim como os motoristas para não “embolarem” o trânsito. As lojas apresentam grande demanda e Bega Calçados (Geraldo Guimarães) está de sorriso largo, pois melhores vendas só mesmo no Natal. Na Alfaiataria de Euclides Caribé, as pessoas fazem fila para “provar” as roupas, ainda que só alinhavadas para posterior costura. Geraldo (Jega Veia) está arretado porque queria somente cerzir uma calça e Clido, irredutível, diz que não há mais tempo. Jega Veia, então, sai a procura de Simonal, Toinho, Tio Elias ou Dermeval. Não tem  como esquecer este 23 de Junho, uma sexta-feira de feira antecipada e com a cidade cheia de sorrisos. Os encontros se multiplicam, a cada momento, numa verdadeira “virose” de alegria!

Gustavo Teixeira, Arlindo Amado, Nilton Cabral, Adauto, Pedrito, Jayme Reis, Jair Soares, Pedro Amorim, Nilo Catalá, Gilse Miranda Bessa e outros formam a Roda da Saúde e se colocam em conversação na esquina do Gileno. De certo que eles têm muito a tratar, uma vez que a Saúde em Senhor do Bonfim está sob perspectiva ruim e o Hospital Regional não é mais suficiente. Gustavinho entabula uma conversa sobre a possibilidade de fundarem um Serviço Hospitalar no antigo Posto Maia.

Antônio Moreira, Benelício Alves de Moraes, Cocone, Ariston (pai), Ferreirinha, Antônio Ramos, Mário Prisco, Theobaldo Rodrigues, Plínio Gomes Soares, Joaquim e João Conceição, Valdomiro, Lucas Soares, Ademias Ferreira, Aurélio (Lelo), Aurélio Garrido, Miguel da Farmácia, Lamartine, Mário Alves, Augusto Sena Gomes, Martinho Barbosa, Salomão Bonfim, José Marcelino, Macambira, José Maia, Valdo Pitanga, Floro, Carlinho e Vavá Carvalho, Luiz Carlos Braga, além de outros empresários da Terrinha, estão preocupados com o futuro do Comércio e das praças que congregam a Feira de Senhor do Bonfim. Pedro Gondim Gomes de Matos e Professor Rade pedem licença para voltar aos seus estabelecimentos. Matos, na sua loja no Campo do Gado, e Rade, na própria Praça da Feira. Pedro Matos, além da loja, está acompanhando os preparativos para a sua fogueira de São Pedro, a qual concorre sempre com a de Pedro Amorim. Jorge, Pedro Ieié e os sobrinhos gêmeos, Lelo e Tonho, estão à frente dos trabalhos da fogueira de Pedro Amorim. Na verdade, Lelo e Tonho adoram mesmo é ficar sentados nos bancos da Praça Nova, em conversas intermináveis!

Emílio Hilarião, Antônio Britto, Antônio Dedé, Divino, Arlindo e Teobaldo confraternizam-se pela baixa do valor do trigo, dando-lhes a condição de fazerem maiores quantidades e novos tipos de pão. Antônio Dedé diz que está fazendo pão de sal, pão-doce, pão-carteira, bolachão, biscoitos e outros derivados. Divino observa que o pão-doce que fabrica é muito procurado pelos jovens do Ginásio Professora Isabel de Queiroz na sua padaria do Bairro da Lagoa. Emílio lembra que tem um grupo de pessoas que ao sair das festas da Sociedade 25 de Janeiro passa por sua padaria para lanchar o pão sempre quentinho. Afinal, como manda a tradição, a lata da boa manteiga fica em mãos do “padeiro”! Teobaldo e Antônio Britto estão felizes com o novo cilindro que compraram. Não precisarão mais “esmurrar” a massa do pão!

Adentrando mais à praça, junto-me a Renato e Plínio José Soares, Fábio, Anfilófio, Nezinho, Osvaldo, Elza, Dimiro, Gerônimo, Sr. Pedrinho, Miltão e outros comerciantes de couros e derivados para a fabricação e produção de sapatos. Discutem o futuro da atividade, uma vez que a sua industrialização é um fato consumado e o número de lojas é crescente. 

Caminhando pela praça, João e Humberto Bartilotti chegam à conclusão de que irão fazer a festa juntos, na velha casa da esquina da Costa Pinto. Sabem que as visitas serão muitas e, por isso mesmo, aumentaram a quantidade de amendoins,  milhos e outras iguarias juninas a serem distribuídas. D. Laura, esposa de Humberto, convidou seus irmãos, Lau, Nego Adi e Pituquinha, para passarem por lá, comer uma boa canjica e tomar um bom licor. De passagem, Sr. Lacerda, pai de Bosquinho, cumprimenta-os e diz que vai passar lá com Ramiro Miranda e D. Raimunda e depois irão à casa de Miguel Abrahão. Será uma festa em família!

À frente do prédio dos Correios, nas imediações da Barraca de Santinho, a família Jatobá ainda discute se haverá forró na residência. Zeca, o pai, se diz contrário, mas Danuza, a mãe, e os filhos (Lula, José, Francisco, Paulo, Toinho e Pedrinho) são favoráveis ao festejo. Como sempre, a voz da mulher é altiva! Todos se concentram no que irão comprar, começando pelo amendoim e o milho. Paulo apressa-se na busca pela carne de bode e Lula grita que trouxe de Salvador uma caixa de isopor cheia de peixes que ele mesmo pescara ( ??? ). Todos riem (evidentemente), e Danuza, irreverente, diz que já guardou tudo para a Semana Santa do próximo ano (risos).

Não há como negar, a nossa Feira é de grandeza ímpar, onde encontramos de tudo: feijão de vários tipos, milhos, andu, fava, arroz vermelho, café da grota, frutas que vão da banana à guabiraba (gobiraba), peixes, animais e aves vivos ou moqueados ( galinha caipira, d’angola, pato, peru etc.), carnes de bode fresca e seca, queijos de vaca e cabra, farinha de mandioca (diversos tipos), tapioca seca, molhada e beneficiada (beiju, farinha, canoinhas etc.), manteiga, requeijão amarelo e cardozo (escuro) , artigos de couro (de sapatos e sandálias à apetrechos de animais), peças de sisal a barro, vestes, redes etc.. Uma infinidade de produtos que identificam a nossa Feira como uma das maiores da Bahia e, quiçá, do Brasil. São quase seis a sete mil metros quadrados de feira.

Mais do que nunca, a Feira está lotada de gente e o “estacionamento de animais”, aos fundos do Cruzeiro, não suporta mais tanta carga. O Campo do Gado também está cheio de animais e Zé Coelho acabou com o seu estoque de Jurubeba Diana. Os catingueiros partiram para comprar o velho e cobiçado Vinho Reserva marca Vencedor, vendido por Mário Alves.

Próximo a Mário Alves, o Barbeiro Betinho Terêncio aproveita para fazer a “cabeça” de muita gente. De tesoura na mão e língua afiada, ele vai desbastando os cabelos dos fregueses ao som de uma boa conversa e de grandes risadas. O freguês da vez é Tico Gonçalves, que terá contada a sua estória de Natal!

Ainda na Praça da Feira, Miguel Abrahão (pai) e Oliveiro Ribeiro de Oliveira trocam conversas sobre a venda de querosene. Paulo Sebastião e José Coelho Filho se aproximam e a conversa diz respeito ao aumento da demanda por aquele combustível, atribuída aos novos lampiões (Placa e Aladim). Os velhos fifós perderam a sua importância e o seu valor, devido a fumaça que empretecia as paredes das casas (o monóxido de carbono afetava as pessoas). Josias Damasceno, atento a tudo, parece interessar-se pelo negócio!

Noutro canto, os irmãos Mariano, Jonas e Branco conversam com Juvenal Conceição, Juvenal Roberto Leite, Antônio Santana, irmãos Cordeiro (Enéas Cupertino e José Cupertino de Andrade), Zé do Jovino, Altino e Aurélio da Bonfinense, Arnaldo Soares e Chico Figueira. Parecem tratar do problema do transporte de pessoas e cargas, dentro e fora da cidade. Acho que reclamam do preço dos combustíveis e do estado lastimável das estradas, que os obriga a gastar um bom dinheiro com frequentes reparos mecânicos.

Não muito longe dali, o Velho Antônio Cabeleira, seu filho Rominho, Augusto do Agapito, Constantino e outros profissionais fecharam as suas oficinas, pois o foco é o São João. Cabeleira os convida para uma celebração na Venda do Maurício!

Voltando pela Cotegipe, vejo a rua cheia de fogueirinhas-de-chão. Uma delas é de Oriana Carvalho, que estará tocando espadas em companhia de Brigada Machado.

Na venda da esquina, Vicente não pára de colocar mercadorias no balcão e fazer  registros na velha caderneta. O pessoal que vem da Umburana e Canoa passa por ali para fazer compras de açúcar, café, sal, pão, arroz e outros mantimentos. Na lateral do imóvel, há um espaço reservado para os animais!
O Casarão da Barão do Cotegipe é imenso, com entrada pela Rua do Posto de Higiene, por onde passam veículos e animais que chegam da roça do Riacho Seco pertencente à família Menezes.

O Velho Juvêncio Menezes e D. Jovina aguardam ansiosamente o dia da feira e a chegada dos mantimentos do Riacho Seco, que vão da galinha caipira ao bode. Os filhos, Anatólio, Bira, Ronald e Ataualpha, além das irmãs, estão sempre na “cola”. O desejo de saborear um belo queijo de cabra é motivação suficiente para estarem todos juntos. A fogueira na porta está armada e haverá queima de espadas.

Ao passar pela Venda do Vadinho, observo que o Velho Wilson, alfaiate, já iniciara as declamações dos poemas de Castro Alves e frases por ele atribuídas a Ruy Barbosa. Wilson não podia “cheirar” uma pinga que se transformava em intelectual!

Em dado momento, vejo passar o Caminhão da Cajuína acompanhado pelos Farias (pai e filho), seus proprietários, a distribuir “batida” de maracujá à população, seguidos por um grande número de pessoas, metade delas embriagada.

Os irmãos Bamberg e o cunhado Dudú, marido de Antonieta, estão no Bar-Sorveteria do Xavier, assim como João Santana, filhos, filhas e genros, os irmãos Valmir e Valdir Ferreira, Antunes e João Bacelar, os irmãos Bololó, Marú e Valmir, juntamente com Divo. A Rinha teria que estar presente!
O Bar de Xavier possui uma das cervejas mais geladas da cidade, pois ele as coloca na salmoura dos picolés, gelando-as rapidamente. Renato (Píula), seu irmão, controla os serviços. A esposa de Xavier, Nice, já está à beira do balcão “ouvindo e noticiando” os últimos acontecimentos. Alguns dizem que o Xavier “matava na frente” e “vendia o caixão” na fábrica que fica aos fundos da Sorveteria-Bar, à Rua do Posto de Higiene e em vizinhança à casa de Calixto. A quadrilha organizada pela Geraldete, filha de Calixto, já se apresentara ao público e a turma já está liberada. Esta noite de 23 de Junho promete uma grande festança na Cotegipe!

As conversas no bar são múltiplas e uma delas trata da grande produção de espadas pelo velho Neném Fogueteiro e Veraldina, que este ano está com uma equipe de primeira linha: os filhos, Luiz e Zé Cabide, e Jundiá, irmão de Fernando Dantas, a socarem a pólvora nas espadas. O Homem da Perninha enrola o bambu com os cordões encerados, enquanto Jailto e Bida  pilam o carvão e o enxofre na produção da pólvora. Eliésio se incumbe de bater o barro e colocar a lama de pólvora nas espadas, contando com a ajuda dos irmãos, Quequera, Dededê e Papala. Ali, ele quer aprender um pouco de tudo, para logo-logo começar uma fabricação própria.

Não posso esquecer que, certa feita, uma Velha Cigana leu as mãos de Jailto(*) e profetizou: nunca cometa a imprudência de socar a pólvora no pilão com um cigarro aceso na boca.

Tudo parece perfeito! Mas, faltam as notícias da fogueira do Pernambuquinho. Zé Porrada, Arlindo e Santinha do Acarajé, Paulo Macaco, Newton Estofador, Celina do Acarajé e filhos, Ribeiro, Neném, Veraldina e filhos, Cabo Ditinho, Manoel da Paz e esposa estão em discussão, para decidir se farão a fogueira no São João ou no São Pedro.

Pelos lados da Avenida Salvador, as filhas de Juvenal Conceição ( Cida, Ângela, Anádia e Anete ), Glorinha da Paz, Sandra Sena Gomes, as filhas de Nélson Sena Gomes ( Fátima, Gal e Carminha), as irmãs Freitas (Ivone, Inalda e Neide) e outras fizeram a sua parte, com a fogueira e Festa de Santo Antônio ( haja matrimônio! ). Uma festa bem planejada e executada com as trezenas do Santo e várias cantorias juninas, como rodas, sambas de lata, xotes e o forró, alucinando a todos que compareceram. As mulheres tinham quase que “obrigação” de conseguir um namorado, ainda que pagando uma “pesada” promessa e o Santo passando pela indelicadeza de ficar “de cabeça para baixo” por um grande período.

Em uma mesa, sento-me em companhia de Jailton Santana, Roberto Simões (Marieta), João Patacha, Chiquinho, Nego Marcos Damasceno e Ricardo Miranda para começarmos a planejar a noite que virá. Pura bobagem! A noite do Dia 23 de junho não se planeja, apenas vive-se! Digo para Jailton que vou à casa de Luiz e Eduardo Teixeira encontrar com o resto do grupo ( Onildo, Paulo Goés, Miralvo, Antônio César, Antônio Campos etc.) e de lá sairemos subindo a Rua Antônio Vicente. Passaremos pela fogueira da Costa Pinto e entraremos na Mariano Ventura ( Conselheiro Franco), com uma parada na casa de Joãozinho Conceição, o aniversariante do São João, para chegarmos à Praça Caixeiros Viajantes.

Subiremos à Cotegipe, tocando espadas, em pequena disputa com  Oriana, Brigada Machado e suas filhas Ítala e Iara, até chegarmos à Praça da Igreja, onde está a fogueira da Prefeitura. Posteriormente, desceremos a Rua Rio Branco para chegarmos à casa do Velho Mário Jambeiro e tomar, possivelmente, o último licor de jenipapo da noite ( aquele que, de fato, embebeda ), sem antes trocarmos fogo com Catarina e Fernando, filhos de Pedro Jambeiro, e lhes desejar um Feliz São João!

Possivelmente, na esquina do Hotel Vitória, estará a família Lyra, com Alberto, Celso e Francisco (Vivi), acompanhados de Aguinaldo (Aguí) e os irmãos. As famílias Paiva e Salgado somente sairão depois das espadas, indo direto para a Praça Nova do Congresso, local do palanque principal. 
Alguém perguntou: “Por onde anda Oleone Coelho Fontes?” Provavelmente, esteja remetendo para as Redações dos Jornais de Salvador textos enaltecendo toda a beleza e grandiosidade da nossa Festa. Enquanto isso, Manoel Canário, Hélio Freitas e demais “Homens da Comunicação” organizavam todo o material recebido para as suas transmissões radiofônicas e noticiários.

Em dado momento, ouço uma música junina ao longe. Não pode ser o Grupo Caroá com Fernando Coelho! Não, não é!

Novamente, inicia-se uma música, em volume mais alto e sem ser junina. Percebo que o som vem do alarme do meu aparelho celular, anunciando as 6 horas da manhã do dia 1° de junho de 2019.
Fico surpreso, atordoado e dou um pulo! 

Infelizmente, chego à conclusão de que tudo não passou de um sonho. Um maravilhoso e inesquecível sonho de São João. Dia 23 de Junho!

___________________

(*) A minha homenagem a Jailto, que deu a sua vida e a sua alma em nome de um patrimônio cultural de Senhor do Bonfim, A Noite das Espadas.
Morador da Conselheiro Franco e depois da Pernambuquinho, lembro, perfeitamente e com extrema nitidez, do dia em que Jailto foi acometido pelo trágico acidente no quintal da casa do Sr. Neném.
A imprudência de fumar enquanto pilava o enxofre e o carvão para fazer a pólvora desencadeou a sua morte instantânea, deixando a todos muito tristes e a cidade consternada.
Infelizmente, confirmara-se a Previsão da Velha Cigana! 

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