26 de março de 2020

ARTIGO: A MISSÃO DO SAHY E O SEU IMPONENTE MONTE, O TABOR!


Por Ten. Cordeiro

O aventureiro Robério Dias, filho de Belchior Dias Moreira (misterioso garimpeiro), provavelmente no início do séc. XVII, entrando mata adentro, chegou às Serras de Itiúba, e do alto daquelas serras teria olhando na direção Oeste e contemplado um complexo de serras imponentes. Perplexo, Robério Dias suspirou e exclamou: Maravilha! Referindo-se às serras que a posteridade chamaria de Serra da Maravilha. Entretanto, no meio das serras, um imenso monte, aparentando a pirâmide de Quéops, se mostrava de forma monumental aos olhos do aventureiro. Logo o imenso monte se transformou em referência geográfica para viajantes, missionários, aventureiros, bandeirantes e garimpeiros. O nome desse monte? Foi batizado de Monte Tabor de Missão do Sahy.

O complexo de serras avistados por Robério Dias, outrora chamado de parte constitutiva da Serra do Espinhaço, hoje também é chamado de Piemonte Norte do Itapicuru – uma das regiões administravas da Bahia. Há ainda quem sustente que as serras existentes em Senhor do Bonfim, Campo Formoso, Itinga da Serra, Pindobaçu, Jacobina e adjacências, compõem a parte final (do Sul para o Norte) da Chapada Diamantina. As próprias Serras de Itiúba, encerram o rugoso no relevo, dando razão a Euclides da Cunha (Os Sertões), quando colocou aquelas serras como o último paredão da Serra do Espinhaço. Depois de Itiúba o que temos é um plano imenso, que compreende o território do Sisal e o Raso da Catarina. Você pode estar se perguntando o que isso tem a ver com o Monte Tabor, nada, se ele estivesse desintegrado dessa cadeia de serras. 

No prolongamento da Serra do Espinhaço (Chapada Diamantina), seguindo o mesmo filão, a população batizou com o passar do tempo, cada montanha com um nome circunstancial: Serra do Lamarão, Serra da Fumaça, Serra d’Agua Branca, Serra do Gado Bravo, Serra da Maravilha, Serra do Mamão, Serra do Catuny, Serra do Jaguarari, Serra dos Morgados, Serra da Santana, Serra da Varzinha, Monte Tabor e outras mais, que compõem o Piemonte. Cada nome desses tem uma razão, mas aqui nos ocuparemos de entender o porquê de Monte Tabor e ouras curiosidades.

A princípio imaginei que “tabor” fosse um termo indígena, cunhado pelos índios que habitavam a região. Pensei que, assim como “sahy”, termo indígena cujo significado é: olhos miúdos/olhos vivos; também “tabor” pudesse originar-se da língua indígena dos tapachós, ou dos paiaiás (região de Pindobaçu). Pesquisando, percebi que “tabor” é um monte existente na região da Galileia, em Israel; e segundo a tradição bíblica, foi lá que ocorreu a transfiguração de Jesus Cristo. É um local santo para os cristãos e atrai multidões de fiéis durante todo o ano. Também é chamado de “Monte da Transfiguração”.

Assim fica evidente que não foram os indígenas da região que atribuíram o nome de “tabor” ao nosso monte de Missão do Sahy (que por sinal guarda muita semelhança com Monte da Transfiguração, que vai da altitude ao formato físico), e sim o homem branco, mais precisamente os franciscanos.

Aqui temos que salientar sobre a chegada dos religiosos em Missão do Sahy. Os principais ensaístas sobre a História de Bonfim, não deixam dúvidas quanto aos religiosos que se estabeleceram aos pés do Monte Tabor e iniciaram o povoamento de Missão do Sahy. Todos eles afirmam que os franciscanos (e não os jesuítas), ano 1697, fundaram um convento sob a proteção de Nossa Senhora das Neves, que a posteridade batizou de Nossa Senhora das Neves de Missão do Sahy, e a partir daí iniciaram a catequização dos indígenas. 

Pois bem, sabe-se que Nossa Senhora das Neves é a padroeira do Distrito de Missão do Sahy. No entanto, o que ficamos a confabular é como Nossa Senhora das Neves se transformou em padroeira do Distrito. Supreendentemente, na busca dessa explicação, encontramos outro monte envolvido nessa história, é o monte Esquilino na Itália.

Conta a História que no de 363 d.C. existia na cidade de Roma, um casal muito rico e religioso, que não possuindo herdeiro, resolveu dedicar sua fortuna para caridade. Então pediram um sinal dos céus, e a Virgem Maria apareceu em sonho, na noite de 04 para 05 de agosto, e disse: “Edificar-me-eis uma basílica na Colina de Roma que amanhã aparecerá coberta de Neve”. E de fato, no outro dia o Monte Esquilino amanheceu coberto de neve. Este fenômeno causou maravilha em todos os moradores, por ser época de verão. O fenômeno ainda gerou perplexidade, porque o Papa Libério (Papa da época), também teve o mesmo sonho do casal. Logo depois o papa foi ter com casal para compartilhar as maravilhas do milagre. Diante daquelas revelações, de imediato começaram a construir a basílica no Monte Esquilino – que amanheceu coberto de neve. Ao final da construção a basílica foi batizada de “Nossa Senhora das Neves”.

Outra curiosidade fica por conta da chegada definitiva dos padres franciscanos no Brasil. Não é segredo que a primeira missa rezada em terras brasileiras, foi celebrada pelo frei franciscano Henrique de Coimbra, no dia 26 de abril de 1500, em um domingo de páscoa. Por isso mesmo o monte da primeira missa, e a primeira poção de terra avistada por Cabral, foi batizado de Monte Pascoal. Os navegadores/aventureiros costumavam atribuir nomes aos fatos e às coisas, de acordo com suas crenças. Vejam o caso do Rio São Francisco, os navegadores: Américo Vespúcio e André Gonçalves, descendo o litoral brasileiro, no dia 04 de outubro de 1501, chegaram até a foz do grande rio, e por ser dia 04 de outubro, dia de São Francisco de Assis, assim o batizaram. Na verdade, os indígenas já chamavam o Velho Chico de Opará (rio-mar). Mas vamos voltar aos franciscanos. Foram eles os primeiros a chegarem por aqui, pois os jesuítas somente passaram a existir em 1534, e somente chegaram ao Brasil no ano de 1549, com Manoel da Nobrega.

A chegada definitiva dos franciscanos no Brasil ocorreu em 1585, e logo que chegaram ergueram um convento sob a evocação de Nossa Senhora das Neves, na cidade de Olinda/PE, de onde começaram a se espalhar em missões pelo interior do Nordeste brasileiro, fundando conventos e aldeamentos, locais onde se aprendiam a fé cristã, além do processo de aculturação através da catequização. O fato de os franciscanos evocarem Nossa Senhora das Neves, com a construção do primeiro convento em Olinda, é prova da ligação desta ordem com a santa, e ao que tudo indica, foi fator conjuntural, por aqui, para a Missão e o Monte se chamarem, respectivamente: Missão do Sahy e Monte Tabor.

Então em 1697, com autorização da Casa da Torre (centro administrativo dos D’Avilas), os franciscanos da Ordem dos Frades Menores, fundaram o convento aos pés do Monte Tabor e deram origem a um novo aldeamento. Pelo que já foi dito nessas linhas, já podemos refletir sobre três questões: Por que chamamos de Monte Tabor? Por que chamamos Missão do Sahy? E por que Nossa Senhora das Neves é a padroeira de Missão? As respostas aparentam ser uma conspiração divina de fatos que vai desde a aparência dos montes citados, até o cruzamento dos acontecimentos.

Pensem comigo. O Monte da Transfiguração, ou Monte Tabor, situado na Galileia, em Israel, é um lugar santo para a tradição cristã; o Monte Esquilino na Itália é fundamental para os católicos e devotos de Nossa Senhora das Neves porque lá surge a evocação à referida santa; ambos os montes são parecidos em formato e altura; Nossa Senhora das Neves foi a evocação do primeiro convento erguido pelos franciscanos no Brasil... Muito logicamente, os franciscanos ao chegarem aos pés do monte dos índios tapachós de Missão do Sahy, o batizaram, por toda a conjuntura apresentada, de Monte Tabor e ao convento construído deixaram sob a proteção de Nossa Senhora das Neves, que logo se transformou em padroeira do lugarejo. E assim se perpetuou até a presente data – Nossa Senhora das Neves de Missão do Sahy.

O Monte Tabor de Missão do Sahy, historicamente, tem uma atmosfera mística e sagrada. É um povoamento que surge muitos antes de Senhor do Bonfim. Quem passa na BA-131, na altura da Missão, e olha para o monte, tem a sensação de pequenez diante de sua monumental estrutura. É como se os séculos passados estivessem ali a nos contemplar – como bem disse Napoleão Bonaparte aos seus soldados, ao dominar o Egito: “Soldados! Do alto dessas pirâmides, 40 séculos vos contemplam”. Talvez hoje as pessoas não se deem conta da visceral relação do povoado de Missão com aquele monte. No passado, o luzente escritor Lourenço Pereira da Silva, em seu livro “O Município do Bonfim”, publicado em 1906, destacou a importância religiosa, cultural e histórica do “Monte Thabor” para os habitantes da Missão do Sahy. Aliás, as autoridades da região, deveriam urgentemente renderem homenagens a Lourenço Pereira, não se enganem, sem ele estaríamos no escuro e sem história, principalmente a cidade de Senhor do Bonfim. Cuidem!

Lourenço aponta que existiam agigantadas romarias ao Tabor durante a Semana Santa. Pessoas vindas de toda a região e de lugares longínquos, em busca de graça, perdão, devoção ou gratidão a Nossa Senhora da Neves. Enfatizou que os fiéis costumavam escrever seus nomes e pensamentos nas paredes da secular capela existente no alto daquele monte. Ainda relatou sobre “um frondoso limoeiro, sempre verdejante, cuja longevidade se perde no olvido do tempo”, e suas folhas eram colhidas durante todo o ano pelos romeiros que as utilizavam como talismã para cura das doenças. A capela ainda está no alto do monte, o limoeiro não mais. A história do Monte Tabor é a própria história de Missão do Sahy, não se dissocia uma da outra, estão unidas. A Missão é um dos povoamentos mais antigos da Bahia, e Senhor do Bonfim nesse tempo era somente uma cabana de palhas nas margens de uma lagoa, um descanso para viajantes. Entretanto, embora muito antiga, a Missão não é o povoamento mais antigo do Piemonte Norte do Itapicuru, antes surgiu o que hoje chamamos de Campo Formoso.

Em 1682 foi criado a Freguesia Velha de Santo Antônio do Sertão de Jacobina, sediada no lugarejo de Santo Antônio, hoje chamado de Campo Formoso. No Brasil Colônia e Império, época em que o clero era mantido pelo Estado, as Freguesia eram uma espécie de zona religiosa, administrativa, “jurídica” e cartorial sob a tutela da igreja. E era, também, uma espécie de divisão do território que interferia fortemente na vida das pessoas. Por exemplo, quando precisava registrar uma criança, ou para realização de casamentos, tudo isso teria que ser feito na sede da Freguesia. Por muito tempo os moradores do Arraial de Senhor do Bonfim da Tapera (Senhor do Bonfim), se deslocavam para a Freguesia Velha de Santo Antônio da Jacobina (Campo Formoso), para realizarem tais procedimentos. Era uma viagem penosa, a pé ou em lobo de animais, careciam de transpor a Serra da Maravilha e a Serra do Gado Bravo para se chegar até a sede da Freguesia. Até hoje em Bonfim temos a chamada Rua Campo Formoso, um dos caminhos de acesso a Serra da Maravilha. Este infortúnio somente acabou no ano de 1812, quando foi criada a Freguesia Colada do Senhor Jesus do Bonfim na Villa Nova da Rainha. Mas em todo caso, sabe-se que Campo Formoso é anterior, pelo menos formalmente, ao aldeamento de Missão do Sahy, pois bem antes, em 1671, Bento Surrel, descobriu as minas de salitre e de sal no Rio Salitre. Mas essa é história para outro momento.

Atualmente festejos de Santo Antônio em Campo Formoso, é chamado de “Arraia da Freguesia”. Fique sabendo você, que tal “freguesia”, nada tem a ver com o comércio, e sim com o fato de Campo Formoso, no passado distante, ter sido sede de “Freguesia”. Fique ligado.

Há ainda outra coisa que precisa ser tratada sobre a Missão. Perdoe pelo texto ir se estendendo. É sobre o nome da tribo dos indígenas registrado por Lourenço Pereira e trazido longamente pela tradição oral, chamando-os de “Patachós”. Professor Paulo Machado já havia tocado nesse assunto, inclusive trazendo a visão de Darcy Ribeiro, quando destaca que os Patachós habitaram o sul da Bahia. Essa região era habitada por tribos variadas do grupo Quiriris/Kiriris: tocós, paiaiás, sapóias e sacaquerinhes, pertencentes a nação Tapuia. Não há outro registro, que este subalterno curioso, tenha visto, senão em Lourenço Pereira, de que os índios da Missão eram chamados de Patachós. É um questionamento que já merece uma maior atenção, para que seja esclarecido.

Desculpem mais uma vez, mas há outra questão a ser levantada sobre Missão do Sahy. A Missão chegou a ser Villa? Os anais atestam, em meu ponto de vista, que sim, mas de forma temporária. Existe uma certa confusão sobre isso, no entanto, o Arraial de Missão do Sahy, segundo Adolfo Silva (Bonfim, Terra do Bom Começo), e o próprio Lourenço Pereira, acabam dando margem para o entendimento de que Missão do Sahy, somente se tornou sede administrativa da Comarca de Vila Velha (Jacobina) em 1720. Em 1722, Jacobina reclamou que a sede administrativa deveria ficar em seus domínios e não em Missão, pois era muito distante da aglomeração urbana que se formou naquelas minas. Nesse mesmo ano (1722), se deu a transferência da sede administrativa para Jacobina.

Adolfo Silva sustenta que Missão conheceu o seu apogeu entre 1697 e 1722, quando por necessidades obvias, da grande demanda e movimentação nas minas das serras de Jacobina, a sede administrativa foi transferida para lá, fundando assim a Vila Velha de Jacobina. Por ocasião dessa decisão, a Missão do Sahy, estagnou seu crescimento. Permanecendo, ainda sim, com sua importância religiosa e cultural para toda a região.

Hoje o Distrito de Missão do Sahy, principalmente o Monte Tabor, a velha igrejinha e o convento, ainda denotam ao lugar uma áurea religiosa e de muitos mistérios. A história do aparecimento da imagem de Nossa Senhora das Neves no alto do Tabor, a localização das ruinas do antigo convento, o cemitério etc. São muitos tesouros que dão uma boa história.

A população é pacata, mas sofre arranhões causados pelos muitos visitantes vindos das redondezas. Alguns visitam a Missão para o deleite e bebedeiras. Desse comportamento surgem estereótipos da população local, alguns históricos inclusive. Outro dia lendo um romance histórico de Gustavo Teixeira da Rocha, “A Quarta Pedra”, me deparei com um bordel de luxo denominado Lupanar, localizado aos pés do Monte Tabor. Uma casa de prostituição voltado para os antigos coronéis e pessoas importantes da região entre o final e início do séc. XVIII e XIX. O romance inclusive infere que um determinado governador da Bahia, teria retirado uma garota desse bordel e a transformado em primeira dama, sustentando a péssima fama de prostituição do lugarejo. Tão bem contada é a história no romance, que cheguei a ir atrás de alguma evidência da existência desse bordel chamado Lupanar, e nada encontrei. Rindo de mim, um riso gostoso, Hélio Freitas disse ser tudo ficção e que “Gustavinho mente feito o diabo”. Então descobrir que Lupanar, na verdade era o nome dos bordeis na antiga Pompéia, engolida pelas lavas do Vesúvio.

Aí estão algumas curiosidades sobre a antiga Missão e o seu Monte Tabor, um lugar sagrado e histórico para a região e de suma importância para o Município de Senhor do Bonfim. Sendo a Missão mais antiga que Bonfim, merece destaque todas as suas curiosidades e seu riquíssimo patrimônio cultural.


Elielton Cordeiro da Paixão – Ten PM.
CFO PM - APM/BA - Prof. de História – UPE
3º BEIC – Juazeiro.               

NOTA: Optei em escrever, como no passado se escreveu, o termo “Sahy”, fazendo uso da letra H. 

Referências:
1 – O Munícipio do Bonfim – Lourenço Pereira da Silva/1906;
2 - Bonfim, Terra do Bom Começo – Adolfo Silva/1971;
3 – Notícias e Saudades da Villa Nova da Rainha, Alias, Senhor do Bonfim – Paulo Batista Machado;
4 – Instagram. Pag: minhacidade_bonfim.

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