16 de maio de 2020

ARTIGO: O SÃO JOÃO DE SENHOR DO BONFIM

Imagem - Prefeitura de Senhor do Bonfim

Por Ten Cordeiro

Quando entra o mês de maio, ali não toca mais outro tipo de música, somente o forró. As escolas se ornamentam e os alunos fazem trabalhos exaltando a tradição, não havendo mais outro tipo de motivação alheia às festas juninas. Os barzinhos lançam, de domingo a domingo, os “Trio Pé de Serra”, anunciando o estouro que está por vir. O milho, a roupa xadrez, o licor, o chapéu de palha e todos os apetrechos decorativos entram em alta no comércio local. O mês de maio vai andando e a ele se soma o frio... a chuva rala e duradoura, o amanhecer chuviscando com as serras cobertas pelas nuvens. Daí a pouco as primeiras alvoradas rasgam a madrugada! prontojá é são João em Bonfim.

O São João de Bonfim é um processo natural e espontâneo que vai se formando a cada dia, e conforme o mês de maio vai avançando, as cores e os sons, vão dando o compasso na dinâmica social da cidade. É como noivos apaixonados cuidando dos preparativos para o casamento; eles vão cuidando de toda a logística para recepcionar os convidados, ao mesmo tempo em que um “frio na barriga”, de felicidade, vai aumentando até a chegada do grande dia, quando os olhos faiscarão de alegria. Eis aí, o retrato da espera do bonfinense pelo São João.As festas juninas são quase um compromisso religioso, um período sagrado para a cidade de Senhor do Bonfim.

Por todos os cantos da cidade paira o espíritoda festivo. Os ensaios para as quadrilhas juninas começam a ganhar destaques e os planejamentos para “os forrós” (forró grito, forró do comércio, forró na praça, forró no trem); as reuniões entre os órgãos públicos e privados envolvidos na promoção dos eventos no espaço gonzagão, espaço forrobodó, forró do sfrega, além da ornamentação e fechamento dos espaços para o evento, todos se volvem para que tudo aconteça sem adversidades.

Depois de meados de maio, não há mais como esconder o amor pelo São João! Tudo está revelado. Mas é no dia 28 de maio, véspera do aniversário da cidade, que as portas do mês de junho (imenso salão de festas) se abrem definitivamente! Depois do aniversario da cidade, não há mais freios, a locomotiva seque sua marcha implacável. Até chegar na semana do dia 23 de junho, data do jubilo, mil alegrias acontecerão pelas ruas e espaços da cidade. Beijos, abraços, danças, amores, amigos, risadas... comunhão! Isso mesmo, comunhão legada pela festa. Tão boa é esta comunhão que após o São João, o bonfinense sente uma espécie “saudade triste”.

Para o São João todos se ornam, das instituições públicas aos pontos de comércio. Todosbuscam se embelezarem para anunciarem a maior e mais encantadora festa da cidade. Nas residências e nos estabelecimentos, é uma obrigação, as pessoas reservam um pequeno balcão e disponibilizam o licor, a paçoca, o bolo de milho e o amendoim.

Durante 07 anos estive mergulhado nesse universo, sentindo e captando o desenrolar do São João de Bonfim, e francamente, éfascinante sentir o nascimento das festas juninas naquele lugar, é como acompanhar o surgimento de um broto de rosa, bem no começo de maio, e ver a beleza do ciclo se completar no mês de agosto, com a festa de Nossa Senhora das Neves em Missão do Sahy, quando então a rosa, nascida do broto, tristemente, mas farta de beleza, começará a murchar.

Outro aspecto importante do evento, são os símbolos. Os vários símbolos congregados formam a festa,além de serem representações da cidade. As espadas, as alvoradas, as quadrilhas, os forrós, as calumbis, caroá, jegue elétrico, sfrega... é um caldeirão de atributos, que, isolado ou não, emitem os sinais da festa junina e se associam à imagem da cidade, permanecendo indissociável.

As alvoradas são interessantíssimas, não pela imensa quantidade delas, mas pela quantidade de pessoas que encaram as madrugadas frias, dando boas-vindas ao São João. Bares, escolas, bairros... todos realizam alvoradas. Chega a ser engraçado como tudo isso se tornou, para mim, enquanto lá estive, símbolo da cidade e da festa.Diversas vezes acordei na madrugada pelos sons das charangas rachando o silêncio, sempre acompanhada de uma multidão a cantar. Outras vezes acompanhei diversas alvoradas, quando de serviço, a exemplo de uma delas que aconteceu em maio de 2019, após o Encontro de Sanfoneiros. Aquilo não foi somente uma alvorada, foi um espetáculo capaz de comover o mais duro dos homens. À época acabei escrevendo um texto para registrar aquele momento ímpar (link ao final)

Todos os símbolos do São João da cidade de Bonfim são exponenciais. Cada um deles tem significado cultural e histórico muito significativos, que isolados acabam representando conjunto da obra. As calumbis, são a representação primeira e genuína do São João, também conhecida por banda de pífanos. Sua origem se perde no tempo. Geralmente são atrações que acontecem na Praça Nova do Congresso, palco das apresentações culturais advindas dos Distritos, são apresentações raiz e natas da festa. Por lá se ver osembriões do São João de Bonfim.

Mas um dos símbolos de Bonfim tem sido alvo de bombardeios absurdos e desnecessários por parte das autoridades, a chamada espada. A problemática que se formou no entorno daGuerra de Espadas foi algo nojento. Um show de prepotência, intransigência e desvirtuamento da realidade, tudo junto numa decisão pautada emuma interpretação selvagem, descabida e desviante dos novos ares do Direito, a saber a tolerância e o respeito. A atualidade condena tal decisão, justamente porque as decisões judiciais estão beirando ao liberalismo total, inclusive a descriminalização do uso de drogas.

Foi um esforço muito grande para colocar a guerra de espadas na ilegalidade, acompanhei tudo e participei praticamente de todas as audiências, por pelo menos três anos. Estive no “olho do furacão”, em 2017, quando aconteceu o primeiro confronto. Algum dia ainda escreverei tudo sobre este desserviço para a cultura da cidade. Enfim, os demais símbolos ainda continuam dentro da legalidade, mas dois já foram silenciados: as espadas e fogueira das moças. Sobre as espadas também, escrevi algumas linhas (link ao final).

Enfim, o São João de Bonfim, é de longe, a melhor festa e o melhor local para passar as festas juninas em toda a Bahia. Não pelas grandes atrações musicais, e sim pela harmonia que se estabelece na atmosfera da cidade. A valorização dos elementos culturais, uma mistura entre o antigo e o moderno e sobretudo, a alegria das pessoas. É uma devoção! Sem mais.
Infelizmente, este ano, a pandemia nos levou, também, este fragoroso encontro marcado. Mas o ano que vem, nos espera! Cuidem para que essa joia do interior, que é o São João de Bonfim, não se estrague!

Elielton Cordeiro da Paixão – Ten PM.
CFO PM - APM/BA - Prof. de História – UPE
3º BEIC – Juazeiro

(1)https://www.blogdonettomaravilha.com.br/2019/05/o-encontro-de-sanfoneiros-e-sua.html
(2)https://www.carlosbritto.com/artigo-do-leitor-guerra-de-espadas-crime-ou-cultura/

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.