22 de maio de 2020

DESABAFO: MÉDICO COBRA MAIS DETALHAMENTO DE CASOS DE CORONAVIRUS EM SENHOR DO BONFIM - SISTEMA ESTÁ PERDIDO E POVO DESINFORMADO


SOBRE NÃO SE PERMITIR CALAR

Eu me formei em 08/01/2016, trabalhei 15 dias em Petrolina, eu tinha vaga certa de trabalho em Petrolina antes de me formar, não por acaso, eu fui indicado por um dos preceptores da Residência de Medicina de Família e comunidade para ocupar a vaga dele, que iria fazer um R3 no Rio de Janeiro. Eu sempre amei a noção de trabalhar no SUS e pra gente de onde eu vim: gente pé no chão, outros filhos de cozinheiras, outras cozinheiras, domésticas, gente do Brasil Profundo, gente que é esquecida e nunca tem voz.

Eu nunca quis ser palavra morta (o verbo sem ação), eu sempre defendi a ida do médico pro interior, então eu tinha que ir pro interior E VIM. 15 dias depois de assumir vaga em Petrolina, ainda em janeiro de 2016, optei por largar uma cidade que tinha uma rede de saúde totalmente organizada, lapidada pelo preciosismo de ter uma universidade com quadros tão atuantes e vir pra Bonfim. Num espaço como esse eu contribuiria, mas eu podia contribuir e construir mais.

Me lancei no desconhecido e vim para Senhor do Bonfim/BA, cidade que eu nem conhecia, pelo programa Mais Médicos,  vim porque achei, e acho, que aqui eu posso contribuir mais: com uma atenção de saúde de qualidade pra quem eu assistir, com a proposição de pautas, com o debate.
As instituições não crescem sem o debate. Os debates, as lutas populares, o povo (e eu sou povo) permitiram que o SUS fosse criado. Não existe pensamento unilateral ou fechado ao diálogo quando a pauta é coletiva e impacta a vida de muitas outras pessoas.

O silêncio tem por conteúdo o vazio, somos seres da linguagem, existimos enquanto seres da linguagem. Eu não caibo no silêncio, eu não me dou forma no vazio. Eu sou questionador, eu sempre o fui, não vou parar de ser hoje, mas sou questionador porque eu acredito que é assim que as coisas evoluem. Eu sou parte do povo e o povo deve ser inserido nos debates, o povo deve questionar e a qualquer gestor cabe apenas entender que isso faz parte, fazer gestão é se indispor, quando a gente não tá disposto a se indispor a gente não deve assumir função pública.

Pois bem, hoje eu fui chamado de mal educado, desrespeitoso e grosseiro pelo secretário de saúde do município de Senhor do Bonfim/BA, por quê? Porque eu cobrei dele, em um grupo de médicos, no privado,  junto com alguns colegas, que nós, Médicos da Atenção Primária, fôssemos chamados para o debate no que concerne às decisões em saúde no contexto da Pandemia de COVID-19. Como fui ignorado, e não foi a primeira vez, junto com meus colegas, no referido grupo, o cobrei no privado. E vocês tem noção do que é cobrar pra ser ouvido quando você é parte e está imerso, exposto, no olho do furacão? Ser ouvido e informado de coisas TÉCNICAS que envolvam o seu trabalho? É vergonhoso você ter que, praticamente, se humilhar para ser ouvido. E eu não estava cobrando nada que envolvesse tecnologia, custos, grandes estruturas não. Falar é de graça, gente boa.

Não há protagonistas quando a luta é coletiva. Se furtar ao diálogo (e até hoje os médicos da atenção primária só foram ouvidos, no contexto de pandemia, quando se “convidaram ao debate”) com os atores que fazem parte de um contexto de guerra como o que vivemos é abrir mão de que, mais cabeças pensando, possam chegar a mais soluções juntos. E não dá pra excluir do debate quem tá ali se expondo e arriscando a vida não (eu e meus colegas também temos família, gente boa, famílias que muitas vezes precisam da gente financeiramente, que estão, longe ou não, angustiadas pelo medo de nos perder). Não dá pra agir de forma egóica quando se é gestor.
Não dá pra gente só se comunicar com o outro quando é conveniente, tipo: “estão fazendo uso político do seu texto”, quando você vem no seu espaço privado e usa ele como voz. A mesma voz que foi antes ignorada.

Eu não sou político, eu não quero pleitear cargo público, eu estou politicamente alinhado com a esquerda, mas minha visão política comporta o debate. Eu sou médico, com 4 anos de experiência em Atenção Primária, que trabalho desde o dia que me formei no SUS, eu faço questão de chamar meus pacientes pelo nome, eu tenho até hoje zero processos de pacientes nas costas, eu já me indispus com gestor (mas nunca fui desrespeitado, por exemplo, por Angeli Matos, que foi minha secretária de saúde por 3 anos), eu já arranjei briga com colega médico, eu já fiz denúncia pra conselho de classe e etc. quando eu sabia que eu tinha que comprar a briga de um paciente ou de alguns (dos sem voz), eu sou alguém que recebe um bom salário pago pelo povo e minha assistência não se resume a prescrever algo e mandar um paciente pra casa, minha assistência em saúde comporta o coletivo, comporta os espaços propositivos e a gestão tem sempre que ser um espaço propositivo.

Tem que ser, mas aqui (senhor do Bonfim/BA) não tem acontecido isso. Temos 17 casos de COVID-19 confirmados no município e um óbito, não sabemos em que fase epidemiológica de transmissão vivemos ainda (pois isso não foi até hoje divulgado, embora pressuponhamos que estejamos em transmissão comunitária), não sabemos a distribuição espacial desses casos no município (e não precisa quebrar sigilo médico para que saibamos onde os casos ocorrem e que vinculo epidemiológico possuem), isso abre espaço pra diariamente surgirem fakenews dizendo que tal bairro está infestado de casos ou que a gestão esconde casos (é o preço que a gente paga por não ser transparente). Os profissionais de saúde da Atenção Primária não são informados se há casos na sua área (ficando tudo a cargo de uma central de monitoramento - que tem trabalhado super bem, diga-se de passagem, mas que é limitada), mesmo que sejamos uma das três (junto com SAMU e UPA) portas de entrada do sistema (para tudo, gente boa, inclusive para casos de COVID-19).

Enfim, eu poderia enumerar outros pontos, mas não quero briga política, e eu não sou oposição, eu sou parte e parte exposta, assim como meus colegas médicos, meus colegas de equipe e a população desse município. Eu sou parte e ajudo a construir o SUS, e nas construções coletivas não pode haver falta de transparência, nas construções coletivas não há protagonistas (o norte nunca pode ser o Ego quando o foco é o Eco), nas construções coletivas os ganhos sempre vieram das lutas coletivas e dos espaços de proposição (conferências de saúde são a prova disso), nas construções coletivas o povo tem sempre que ser informado de tudo (o povo é o senhor do coletivo), nas construções coletivas a transparência tem que ser a regra, nas construções coletivas não cabe o destempero.

E não permitirei ser chamado de mal educado e grosseiro quando eu estiver me propondo a discutir e trabalhar e pensar saúde pra além de minhas 8 horas de trabalho na assistência. Eu não sou palavra morta, eu não permitirei ser silenciado. Eu não me furtarei de usar minha voz, mesmo que ter voz implique em lidar com os dissabores a que estão submetidos os que não se permitem calar.

Dr. Fábio Amorim

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