25 de agosto de 2021

ARTIGO: SOLDADOS, ESPERANÇA E DESGRAÇA!

 


Por Ten. Cordeiro

Há um soldado em cada canto da História!


Quando Fidípides atravessou a planície de Maratona, correndo 42km para anunciar a boa nova aos moradores de Atenas, estava cumprindo uma missão que recebera do seu comandante, Milcíades. Fidípides era um SOLDADO. Ao chegar ofegante, comunicou a vitória dos gregos sobre os persas: “Alegrai-vos atenienses, nós vencemos”. Logo em seguida caiu e faleceu devido ao imenso esforço empreendido. O feito de Fidípedes foi imortalizado e os participantes das maratonas o saúdam. É por ele que existe esse tipo de competição.


Um soldado sempre tem sua missão, e de todas as formas buscará cumpri-la, mesmo com o risco da própria vida. São os seres humanos mais intrépidos sobre a face terrena! Dignos da maior conotação. Nos soldados se depositam a proteção, o abrigo e a esperança de um povo. O soldado é a garantia da paz social e a concretização das leis; sem eles, as leis, não passariam de um amontoado de letras postas em papeis. É a pedra angular, o guardião da coletividade, e a ela oferece sua vida todos os dias, sempre enunciando boas novas, como fez Fidípides. Mas também, traz em si azedume. Soldados não vencem o mal com o bem, mas com um mal maior. É o veneno mais forte. 


Cada vez que a palavra soldado é pronunciada, é como se um raio rasgasse o céu de leste a oeste, fazendo tremer a estrutura do mundo dos vivos, e do reino dos mortos. Soldados são antíteses – a maior acepção da esperança e da desgraça. É neles que os homens se erguem ou se esfacelam; se fazem reis ou se tornam cadáveres. Um soldado traz consigo dor e alegria. A dor – quando golpeia. A alegria - quando afaga e protege. É o braço que socorre, mas também é a lança que fere. Soldados são anjos e demônios, na exata medida do lado em que estejam. Alguns soldados irão para o céu, outros se deitarão ao solo da vergonha. Ao inferno aqueles que desvirtuaram da justa conduta. 


Sobre seus ombros Roma foi erguida e mantida por séculos. De igual modo, com sua ausência, Roma desmoronou. 


Soldados se rebelam ou se lançam ao motim ante a tirania de um comandante. Alexandre, o Grande, com sua ambição insaciável de conquistar a Ásia, na tentativa de avançar além do Ganges, entendeu bem o significado dos soldados. Aqueles homens, corroídos de saudades de seus filhos, esposas e pais, recusaram a seguir Alexandre. Sem soldados Alexandre não passava de um garoto qualquer, assim como Napoleão. Na verdade grande mesmo eram os soldados. 


Então após a recusa da tropa, Alexandre retornou para Pérsia. Não pôde avançar, pois sem soldados ninguém avança, ou jamais avançará. Fora da tirania, todos soldados se doam a suas missões e amam seus genuínos comandantes. A tropa segue seu comandante no campo de batalha; o exemplo vem do comandante. Assim foi Júlio César ao atravessar o Rubicão, marco divisor da Gália. O senado romano, temeroso, determinou a Júlio César que não atravessasse rio. Mas César era amado por seus soldados; Cesar era, àquela altura, maior que Roma. Entrou em Roma, com grande prestigio e pompa, abriu as portas para o grandioso Império. Ali estava a figura de um gigante despontando, mas sua base estava nos soldados. 


Em qualquer canto do mundo, ou da História, seja entre: Astecas, Incas ou Maias, ou mesmo entre a imensa nação dos Tupinambás e Tupiniquins; a existência do soldado está ligada a uma condição humana... a vontade de poder e dominação. Em qualquer tempo, ou época, soldados defendem causas e nelas residem suas missões. Foram tais causas que levaram os soldados hoplitas a se amontoarem em falanges com escudos e longas lanças, enfileirados a se digladiarem até a morte com seus oponentes. Gritos de horror eram produzidos quando as lanças arrebentavam seus corpos, pressionados por seus companheiros nas fileiras. Era uma carnificina. Aquilo era exemplos maior de infantaria. 


De igual modo eram os legionários romanos. Ninguém foi tão estratégico como eles. Bem formados e disciplinados, eram ensinados a defenderem Roma. Roma era sua vida. Era uma espécie de religião, assim como dizia o apóstolo Paulo: “...e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim”. Aos legionários importavam a gloria de Roma. Soldados são suas missões. Defendem a trincheira com suas vidas, ou não foi isso que fez os 300 de Esparta, liderados por Leônidas, na Batalha das Termópilas? Deram suas vidas por uma causa, morreram com seu comandante e por seu povo. Deles, os espartanos, segue o exemplo supremo de disciplina. Os espartanos são os melhores soldados da História da humanidade, a eles todos os demais devem deferência. Esparta legou ao ocidente o tipo ideal de soldado, mesmo hoje, na era dos Direitos e da Dignidade, os soldados que não miram nos espartanos, não passam de enganadores. Na primeira situação real de enfretamento com os punhos ou à bala, sucumbem podendo inclusive perderem suas vidas. 


Há soldados perversos? Muitos. Há quem diga que eles não têm coração. Sabe aquele Soldado Amarelo pintado por Graciliano Ramos, em Vidas Secas? Pois é, aquele soldado era a personificação mais pura da prepotência. Pobre Fabiano, insultado e humilhado pelo Soldado Amarelo, e quando teve a oportunidade de vingar-se, no meio da caatinga brava, não o fez, por respeito e temor, “governo é governo”, dizia ele. Era a miserabilidade de um país desintegrado do grande centro. Ou não é isso que nos mostra “Grande Sertão: Veredas”? A soldadesca atrás da jagunçada que se esgrimiam sertão adentro. Mas é Euclides da Cunha que nos mostra o que de fato era o sertão para o resto do país. Éramos alienígenas; todavia, os exércitos do Brasil, conheceram a bravura dos filhos do sol, que o diga o Coronel Antônio Moreira Cesar, conhecido como “corta-cabeças”, tombou diante do Conselheiro, deixando o Brasil perplexo. Como podia um “herói” nacional da Guerra do Paraguai morrer assim? Ah Canudos! Fostes o exemplo de como morremos por uma causa. 


Na mesma época, soldados já morriam em razão de sua função. A condenação era a morte. Foram sete deles pertencentes à PMBA, executados por Lampião e seu bando na cidade de Queimadas/BA, no dia 22 de dezembro de 1928. O facínora deu a pena ali mesmo aos “macacos”. Ao final, ele mesmo, com seu bando, foi tragado por soldados em 28 de julho de 1938, na grota Angicos, Sergipe. O propósito do soldado é cumprir a missão para a qual fora treinado, o que passar disso, não sendo proteção, é maldade e tirania pessoal. Os julgamentos pessoais de um soldado, são suprimidos pelo propósito da missão. A missão representa a áurea do designío; é a bandeira e o espirito a ser defendido. 


E por falar em soldado perverso, lembro daqueles soldados, a chicotear o corpo de Cristo a mando de Herodes, e depois, já no Gólgota, dividirem as vestes de Jesus entre eles, jogando dados para sortearem sua capa. Um espetáculo doloroso. Não bastasse o sofrimento, soldado Longuinho, ainda transpassou o peito de Cristo com uma lança. Antes ainda eles ouviram de Cristo: “Pai, perdoai-vos, porque eles não sabem o que estão fazendo”. A maldade daqueles soldados era cumprimento da profecia. À época reinava a barbárie e os castigos físicos como exemplos. A própria cruz, uma criação dos soldados assírios, fora criada para o exemplo aos malfeitores e rebeldes. Mas aqueles soldados no Gólgota, estavam em missão. O sicário Pilatos, ou melhor, o desejo de sangue do hebreu, fez o povo gritar por Barrabas. Mas lá, aos pés da cruz estavam os soldados, assim como estiveram no santo sepulcro em vigilância.  


Soldados estão em toda parte. Mesmo o mais extraordinário dos apóstolos, Paulo, se fez soldado. Combateu o bom combate e entendeu que um combatente se faz na disciplina. Por sua disciplina e combate, Cristo chegou a nós. Talvez ele tenha sido o maior dos soldados! Aceitou sua missão e a ela deu sua vida.  


Hoje, o soldado é garantidor da dignidade da pessoa humana. Ele é formado nesse diapasão, de proteger a sociedade, mesmo com risco da própria vida, diz seu juramento. Aprendem a defender os direitos humanos e sacramentar a cidadania como regramento do seu dever. No entanto, ainda hoje, assim como aconteceu em 28/12/1928, na cidade de Queimadas, soldados ainda são mortos por serem soldados. O crime organizado empoderado, e a impunidade vergonhosa instalada em nosso país, tem levado soldados a aprenderem, não em sua formação, mas no dia a dia policial, de que é preciso sobreviver. 


Mesmo com os ventos da injustiça, os soldados se doam. O soldado é a esperança da mulher agredida, da vítima de furto ou roubo, da vítima de abuso e violência sexual... Primeiro chamam por Deus, depois por soldados. Para as vítimas, soldados são anjos. Vê-los em meio ao desespero, é um sussurro de êxtase, eles são o temor do ladrão e do malfeitor, é o limite do homem mau!

Há um soldado em cada canto da História!



Elielton Cordeiro da Paixão, 3º BEIC/Juazeiro-BA

Bacharel em Segurança Pública – APM/PMBA

Professor de História – UPE/FFP

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