24 de maio de 2022

O SÃO JOÃO DE SENHOR DO BONFIM

Imagem: prefeitura municipal de Sr do Bonfim


Por Capitão Cordeiro 

Quando entra o mês de maio, ali não toca mais outro tipo de música, somente o forró. As escolas se ornamentam e os alunos fazem trabalhos exaltando a tradição, não existindo mais outro tipo de motivação alheia às festas juninas. Os bares lançam, durante a semana, os “Trio Pé de Serra”, já anunciando o estouro que está por vir. O milho, a roupa xadrez, o licor, o chapéu de palha e todos os apetrechos decorativos entram em alta no comércio local. O mês de maio vai andando e a ele se soma o frio... a chuva fina e duradoura, o amanhecer chuviscando com as serras cobertas pelas nuvens. Daí a pouco as primeiras alvoradas animadas rasgam as madrugadas! Pronto já é São João em Bonfim, nada impedirá o encanto que se avizinha. 


O São João de Bonfim é um processo natural e espontâneo que vai se formando dia-a-dia, e conforme o mês de maio vai avançando, as cores e os sons, vão dando o compasso na dinâmica social da cidade. É como noivos apaixonados cuidando dos preparativos para o casamento; eles vão cuidando de toda a logística para recepcionar os convidados, ao mesmo tempo em que o “frio na barriga” (de felicidade), vai aumentando até chegar do grande dia, quando os olhos faiscarão de alegria. Eis ai o retrato da espera do bonfinense pelo São João.  As festas juninas são como um compromisso religioso, um período sagrado para a cidade de Senhor do Bonfim. 


Por todos os cantos da cidade paira o espírito festivo. Os ensaios para as quadrilhas juninas começam a ganhar destaques e os planejamentos para “os forrós” (forró grito, forró do comércio, forró na praça, forró no trem... infindos forrós); as reuniões entre os órgãos públicos e privados envolvidos na organização dos eventos – Espaço Gonzagão, Espaço Forrobodó, Forró do Sfrega, Jegue Elétrico, Caroá – se aceleram. Todos se volvem para que tudo aconteça sem adversidades.  


Depois de meados de maio, não há mais como esconder o amor pelo São João! Tudo está revelado. Mas é no dia 27, véspera do aniversário da cidade, que as portas do mês de junho se abrem definitivamente! Depois do aniversário da cidade, não há mais freios, a locomotiva seque sua marcha implacável. Até chegar na semana do dia 23 de junho, data do jubilo, mil alegrias acontecem pelas ruas e espaços da cidade. Beijos, abraços, danças, amores, amigos, risadas... comunhão! Isso mesmo, comunhão legada pela festa. Tão boa é tal comunhão que após o São João, o bonfinense sente uma espécie de “saudade triste”.       


Todos se ornam, das instituições públicas aos pontos de comércio; todos se embelezam para anunciarem a maior e mais encantadora festa da cidade. Nas residências e nos estabelecimentos, é uma obrigação: as pessoas reservam um pequeno balcão e disponibilizam o licor, a paçoca, o bolo de milho e o amendoim.  


Durante sete anos estive mergulhado nesse universo, sentindo e captando o desenrolar do São João de Bonfim, e francamente, é fascinante sentir o nascimento das festas juninas naquele lugar; é como acompanhar o surgimento de um broto de rosa (bem no começo de maio), que desabrocha e vai seguindo seu ciclo de beleza, e somente no mês de agosto se encerra, com a festa de Nossa Senhora das Neves no distrito de Missão do Sahy, quando então a rosa, nascida do broto, tristemente (mas farta de alegria), começará a murchar.  


Outro aspecto importante do evento, são os símbolos. Os vários símbolos congregados formam a festa, além de serem representações da cidade. As espadas, as alvoradas, as quadrilhas, os forrós, as calumbis, caroá, jegue elétrico, sfrega... é um caldeirão de atributos, que, isolado ou não, emitem os sinais da festa junina e se associam à imagem da cidade, permanecendo indissociável. 


As alvoradas são interessantíssimas, não pela imensa quantidade, mas pela multidão de pessoas que encaram as madrugadas frias, dando boas-vindas ao São João. Bares, escolas, bairros... todos realizam alvoradas. Chega a ser engraçado como tudo isso se tornou, para mim, enquanto lá estive, símbolo da cidade e da festa. Diversas vezes acordei na madrugada pelos sons das charangas rachando o silêncio, sempre acompanhada de uma multidão de pessoas a cantar. Acompanhei diversas alvoradas, quando de serviço, a exemplo de uma delas que aconteceu em maio de 2019, após o Encontro de Sanfoneiros. Aquilo não foi somente uma alvorada, foi um espetáculo capaz de comover o mais rude dos homens.   


Todos os símbolos do São João da cidade de Bonfim são exponenciais. Cada um deles tem significado cultural e histórico muito significativos, que isolados acabam representando conjunto da obra. As calumbis são a representação primeira e genuína do São João, também conhecida por banda de pífanos. Sua origem se perde no tempo. Geralmente as bandas de pífanos se apresentam na Praça Nova do Congresso, palco das apresentações culturais advindas dos Distritos, são apresentações raiz e natas da festa. Por lá se ver os embriões do São João de Bonfim.


Entretanto, um dos símbolos de Bonfim tem sido alvo de bombardeios absurdos e desnecessários por parte das autoridades, a chamada Guerra de Espadas. A problemática que se formou no entorno da Guerra de Espadas foi algo nojento. Um show de prepotência, intransigência e deturpação da realidade, tudo junto numa decisão pautada em uma interpretação selvagem, descabida e desviante dos novos ares do Direito, a saber: a tolerância e o respeito. Foi um esforço muito grande para colocar a Guerra de Espadas na ilegalidade e um processo deprimente. Já são dois símbolos silenciados, as Espadas e a Fogueira da Moças.


Enfim, o São João de Bonfim, é de longe, a melhor festa e o melhor local para passar as festas juninas em toda a Bahia. Não pelas grandes atrações musicais, e sim pela harmonia que se estabelece na atmosfera da cidade. A valorização dos elementos culturais, uma mistura entre o antigo e o moderno e sobretudo, a alegria das pessoas. É uma devoção! Sem mais. 


Felizmente, este ano, após a pandemia, retomaremos com grande alegria! Com a mesma alegria do descomunal Hélio Freitas!  


Elielton Cordeiro da Paixão – Cap PM.

Prof. de História – UPE

3º BEIC – Juazeiro

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